Antes o optimismo

“Ser optimista sai caro. Custa muito: tanto no esforço de virarmos as coisas que vimos no sentido da esperança, como na rajada de dor que provocamos, acreditando que, apesar de tudo, tivemos sorte.

Ser optimista é passar por estúpido. Não é inteligente porque os resultados esperados (não apenas desejados, mas esperados) são, pelo menos 90 por cento das vezes, piores do que se esperava.

Quanto maior o número de tristezas que acontecem ou nos acontecem – que doem e deixam marca -, mais difícil é manter a visão optimista que, mal por mal, tudo acabará por se resolver.

Quanto mais velhos ficamos e mais desilusões acumulamos, a tendência preguiçosa é concluir que são as esperanças que nos fazem sofrer. 

No entanto pode ser ainda mais estúpido julgar as esperanças e ilusões conforme o resultado delas. Vamos supor que eu passo 50 anos a acreditar que um dia reconhecerão o meu talento para escrever ou pintar. Quando perfaço 50 anos, descubro, através de outros e da minha reacção ao que acham, que não tenho jeito nenhum. Chego à conclusão que perdi meio século a dedicar-me erradamente. E fico, de repente, infeliz. E esclarecido. Sou uma merda.

Entretanto, parece que me esqueço da felicidade e da segurança durante os 40 e tal anos em que era optimista e convencido.

Se calhar, o resultado ou a opinião dos outros é apenas um elemento, ocasional e aleatório, do que valemos e de quem somos e do que vale o que escolhemos fazer.

Ou não?”

Miguel Esteves Cardoso em “Como é Linda a Puta da Vida”

Dormir com Lisboa

“Lisboa, acordaste e vestiste um manto de invisibilidade. Escondes-te na névoa densa de uma só cor; este branco não te fica bem.
Lisboa, precisas de te despir, de te dares sem mistério, sem sombras, sem ares de outras capitais cinzentas.
Lisboa volta!
Deixa cair esta brancura que te apaga. Estende-te preguiçosa, sem vergonha de seres quem és, devolve as cores que são só tuas e deixa os barcos beijarem as tuas margens sem os apitos fortes, eles trazem gente que precisa de ver onde põe os pés, sem obstáculos, sem medo, determinados a seguir as suas vidas contigo como porto seguro. Essa ideia de acordar assim, sem brilho, sem a luz aberta da Primavera, o amarelo e rosa dos prédios, o salpicar de tons descarados das sardinheiras nas varandas, o azul do rio e o verde da outra margem, só deixa em ti uma confusão que mistura o branco da calçada com o branco do céu.
Lisboa, esta não és tu.
Pareces uma criança. Se estás arrependida, corrige o teu erro e devolve-nos quem levaste. Se já nada podes fazer, então, não te escondas, revela o que fizeste a essa gente e deixa que te castiguem. Pior de tudo é a tua autopunição, esta espécie de cobardia que te transforma na cidade que não és.”

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Quem quiser comprar o livro terá de o fazer na única livraria portuguesa a ter o mesmo à venda… a Traga Mundos de Vila Real

Infelizmente os nossos irmãos espanhóis tiveram mais olho para a excelência literária da Fausta Cardoso Pereira do que as nossas editoras nacionais, e porque o reconhecimento foi de facto especial, não só a premiaram como editaram o livro também em português 🙂

 

 

Johnny Cash – Hurt

 

I hurt myself today
To see if I still feel
I focus on the pain
The only thing that’s real
The needle tears a hole
The old familiar sting
Try to kill it all away
But I remember everything

What have I become
My sweetest friend
Everyone I know goes away
In the end
And you could have it all
My empire of dirt
I will let you down
I will make you hurt

I wear this crown of thorns
Upon my liar’s chair
Full of broken thoughts
I cannot repair
Beneath the stains of time
The feelings disappear
You are someone else
I am still right here

What have I become
My sweetest friend
Everyone I know goes away
In the end
And you could have it all
My empire of dirt
I will let you down
I will make you hurt

If I could start again
A million miles away
I would keep myself
I would find a way

Song by: Trent Reznor