O homem do puzzle

“Não sei quanto tempo passou. Talvez valesse a pena levantar-me, esticar o corpo, atirá-lo à cama para dormir um par de horas antes de voltar a ver todo o universo de cores que o dia traz. Tanto preto, cinzento, branco e verde até me podiam fazer mal. Mas não havia cansaço ou sono, apenas uma aceleração constante, e no meu interior tudo circulava a alta velocidade. O meu coração sentia-se numa urgência, como se estivesse preso num porta-bagagens, a bater na lata do carro com força e a gritar para o tirarem dali. Deitar-me não iria abrandar este movimento, pelo contrário, deixar-me-ia mais agitado por não estar em frente ao puzzle, a encaixar uma peça de cada vez. Segui por mais uma ou duas horas, não sei bem. Voltei a conviver com a ausência de cores até ao momento em que o despertador do quarto tocou alto e me lembrou que seriam horas de acordar.

Fui arrancado à cadeira, contrariado, como quando acordo na cama e me apetece ficar mais cinco minutos e acabo por ficar mais dez, quinze, vinte. Queria continuar ali, na minha zona de conforto, no sossego do meu terceiro andar, com o Sol a girar pelo prédio, entrando na sala de manhã e à tarde na cozinha, até desaparecer outra vez. Eu passaria bem sem as rotinas do trabalho. Passaria bem sentado, todo o dia, em frente à mesa com o feltro verde e ocupado com o universo caótico de peças para ordenar numa ordem maior do que a exigida pela Empresa onde há mais de dez anos fecho os meus dias e cumpro com horários, regras, pressupostos, solicitações, para, no fim, ficar tudo na mesma, propositadamente disperso. Por lá, o poder e a gestão não são peças de um puzzle, com um lugar apenas, predestinado; são antes uma perda de tempo, porque há sempre alguém que quer manter pontas soltas, demasiadas, que os peões, como eu, devem encontrar e juntar, enquanto demonstram uma clara satisfação pelas tarefas, inglórias, que executam.

Qualquer ordem ali será sempre desordenada e o meu trabalho nunca suficiente mas apenas uma ilusão do possível. Perdi a ambição de subir a escada visível da hierarquia porque na Empresa não há solução e o caos é intencional. Ganho apenas uma vida material e sigo contrariado, para cima e para baixo, com suspiros largados durante o dia, a despachar assuntos e com pressa de que as horas sejam rápidas. O puzzle espera por mim, e ele é o único com uma conclusão previsível, o único capaz de reunir nele próprio o princípio e o fim, um plano perfeito onde cada coisa tem o seu lugar, a recompensa pelo meu esforço.”

“O Homem do Puzzle” por Fausta Cardoso Pereira

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