Quem Conta um Conto… “Amor Bulímico”

“O cheiro a hospital não é mais do que uma mistura de éter e ironia. Todos acabam na mesma posição. Comem da mesma comida aborrecida e vestem roupas de tamanho universal. Era separar as águas. Hospitais para quem merece salvação e hospitais para os que são para deixar morrer, pensou.

Há já algum tempo que estava acordado, mas Raquel resistia a olhá-lo. Durante horas observou o relvado lá em baixo e o deslizar dos eléctricos na rua em frente. Tomou coragem e abeirou-se da maca. Por detrás dos tubos e dos pensos já pouco restava do homem que tinha sido até ao dia anterior. Dificilmente o reconheceria se a visão da cara dele, transfigurada numa monstruosa agonia, não estivesse tão viva dentro dela.

Passou-lhe a mão pela testa, a única parte deixada a descoberto para além dos olhos. Foi justamente com os olhos que André gritou o nome dela. Tinha tanto para dizer e sobrava-lhe tão pouca força no olhar. Cansou-se e deixou cair as pálpebras como cortinas num palco.

Ainda lhe restavam pelo menos quarenta minutos de visita, mas Raquel saiu do quarto em direcção ao elevador e tocou descontroladamente no botão. 8, 7, 6. Parado no sexto andar, o do bloco operatório, onde André estivera horas antes. O sentimento do costume – a pressa, como secretamente lhe chamava –, começou a ganhar forma e decidiu-se pelas escadas.

Sentiu a falta dele, agora que estava fora do quarto. Não eram saudades, era um buraco negro crescente. Quis voltar para trás e destruir tudo o que a separava dele. Portas, paredes, janelas. Respirou fundo e continuou a subir, degrau após degrau, numa cadência cada vez mais acelerada.

Já na fila da cafetaria, passou o olhar impaciente por todos os bolos, doces, salgados e sanduíches expostos. Pediu uma sandes mista com pouca manteiga, dois croquetes, um duchesse e um pastel de nata. Por favor e sem um pingo de indecisão na voz.

Quem a visse passar, mulher pequena e enfezada de tabuleiro na mão, diria que se preparava para matar a fome de uma vida. Assim foi. Sentada na mesa mais escondida da cafetaria, de ombros contraídos e olhar desligado, Raquel abocanhou primeiro a sandes, intervalou os croquetes com o duchesse e rematou com o pastel de nata. Sem respirar nem limpar a boca entre cada dentada.

Observou os pratos vazios. Havia migalhas por toda a parte: no tabuleiro, na mesa, na roupa dela e no chão. Sentiu-se cheia de nada e correu para a casa de banho. Todas as cabines tinham as portas abertas e entrou na primeira à direita. Ajoelhou-se e levou os dedos à garganta.

Raquel vivia numa corrente de precisar e não precisar, de querer e não querer. As necessidades impunham-se, atropelavam-se, substituíam-se. Galopavam dentro dela e levavam tudo à frente. Ninguém estranharia se a visse ali, prostrada ao lado da sanita. Bem vistas as coisas, estava na casa-de-banho de um hospital, o sítio de maior degradação humana por metro quadrado.

Não desviou os olhos do fundo da sanita quando puxou o autoclismo. Era isto que a fascinava: confirmar que conseguia dominar algo que lhe era exterior e, ao mesmo tempo, estava dentro de si. Por breves instantes tinha a capacidade de conduzir a ordem das coisas. Lembrou-se da noite anterior.

Ao regressar a casa tinha sempre a sensação de estar a nadar contra a corrente de um rio – a vontade de estar com ele fazia atrito contra a necessidade de estar sozinha. Nessa noite, sem saber bem porquê, a urgência de estar sozinha tinha levado a melhor. Raquel fez peso morto e deixou-se levar pela corrente.

André esperava-a sentado no sofá, com uma garrafa de Super Bock na mão e umas quantas, já vazias, espalhadas pela mesa de apoio. Estes eram sempre os piores dias, aqueles em que ela queria isolar-se e em que, por coincidência, ele voltava a beber.

Foi até ela aos tropeções e tentou agarrá-la. Sabes que não gosto que me abraces quando cheiras a cerveja. Disse-o tão baixinho que foi como se lhe desse carta branca para insistir. Sentiu o hálito dele por toda a parte. No pescoço, na bochecha, no peito. Empurrou-o, embora sem sucesso. André possuía a capacidade de a absorver e de lhe sugar todas as forças. Amava-o e era isso que mais a assustava.

Voltou a empurrá-lo, desta vez mais convicta do que fazia. Seguiu-se um braço de ferro interminável. André agarrou-lhe os pulsos e lançou-lhe um sorriso paternalista. Vá lá, princesa, deixa-te de coisas. Raquel respondeu-lhe aos pontapés, enquanto gritava descontroladamente. Odeio-te, odeio-te, odeio-te.

O amor que sentia por André era tão reconfortante quanto tóxico. Era mais forte do que o choro compulsivo e mais urgente que o riso provocado pelo toque leve de uma pena na pele. A pressa era sempre maior quando estava com ele. Como se a vida passasse por cima dela e a consumisse para além dos limites do controlo.

Naquele momento, contudo, a necessidade de o expulsar era maior do que a de continuar a amá-lo. Mas deixou-o dominar. Sem resistir, deixou-o atirá-la para o sofá. Deixou-o até entrar dentro dela. Deixou-o acelerar até não conseguir mais e manteve-se muito quieta. Linda menina, ouviu-o dizer no fim.

A pressa de Raquel apareceu sabe-se lá de onde e segredou-lhe ao ouvido que devia pegar na garrafa de cerveja tombada junto ao sofá, que devia acabar com aquilo de uma vez por todas, que talvez não fosse má ideia dar com ela na cabeça de André. Raquel dificilmente conseguia contrariá-la.

Como se estivesse fora de si, viu sangue, estilhaços de vidro pelo ar e André meio atordoado, mas ainda de pé. Raquel investiu novamente, desta vez com o gargalo, a única parte da garrafa que ainda tinha na mão. Só parou quando, no meio de todo aquele sangue, já não conseguiu distinguir-lhe as feições.

A água do autoclismo deixou de correr. Raquel apoiou-se na sanita, levantou-se do chão e foi até ao espelho para ver se tinha a boca suja. Olhou o relógio e, com prazer, verificou que ainda tinha dez minutos de visita. Precisava urgentemente de o abraçar.”

Amor Bulímico por Rita Da Nova, conto integrado no projecto Quem Conta um Conto

 

 

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