Morrer

“Vou-lhe explicar uma coisa – O que é triste é morrermos da morte de um outro. Quer dizer: cada qual tem a sua própria morte, única e exclusiva como a vida. Esse é o momento final que nos está destinado. Mas, às vezes, uma outra morte, por engano, cruza connosco. Assim é que é triste morrer.”

Mia Couto em Vinte e Zinco

Guerra vs. Paz

“A diferença entre a guerra e a paz é a seguinte: na Guerra, os pobres são os primeiros a serem mortos; na Paz, os pobres são os primeiros a morrer. Para nós, mulheres, há ainda uma outra diferença: na Guerra, passamos a ser violadas por quem não conhecemos”

Mia Couto in “Mulheres de Cinza”

Espelho? qual espelho?

“Sorte a dos que, deixando de ser humanos, se tornam feras. Infelizes os que matam a mando de outros e mais infelizes ainda os que matam sem ser a mando de ninguém. Desgraçados, enfim, os que, depois de matar, se olham no espelho e ainda acreditam serem pessoas”

Mia Couto in Mulheres de Cinza

Quem Conta um Conto… “Amor Bulímico”

“O cheiro a hospital não é mais do que uma mistura de éter e ironia. Todos acabam na mesma posição. Comem da mesma comida aborrecida e vestem roupas de tamanho universal. Era separar as águas. Hospitais para quem merece salvação e hospitais para os que são para deixar morrer, pensou.

Há já algum tempo que estava acordado, mas Raquel resistia a olhá-lo. Durante horas observou o relvado lá em baixo e o deslizar dos eléctricos na rua em frente. Tomou coragem e abeirou-se da maca. Por detrás dos tubos e dos pensos já pouco restava do homem que tinha sido até ao dia anterior. Dificilmente o reconheceria se a visão da cara dele, transfigurada numa monstruosa agonia, não estivesse tão viva dentro dela.

Passou-lhe a mão pela testa, a única parte deixada a descoberto para além dos olhos. Foi justamente com os olhos que André gritou o nome dela. Tinha tanto para dizer e sobrava-lhe tão pouca força no olhar. Cansou-se e deixou cair as pálpebras como cortinas num palco.

Ainda lhe restavam pelo menos quarenta minutos de visita, mas Raquel saiu do quarto em direcção ao elevador e tocou descontroladamente no botão. 8, 7, 6. Parado no sexto andar, o do bloco operatório, onde André estivera horas antes. O sentimento do costume – a pressa, como secretamente lhe chamava –, começou a ganhar forma e decidiu-se pelas escadas.

Sentiu a falta dele, agora que estava fora do quarto. Não eram saudades, era um buraco negro crescente. Quis voltar para trás e destruir tudo o que a separava dele. Portas, paredes, janelas. Respirou fundo e continuou a subir, degrau após degrau, numa cadência cada vez mais acelerada.

Já na fila da cafetaria, passou o olhar impaciente por todos os bolos, doces, salgados e sanduíches expostos. Pediu uma sandes mista com pouca manteiga, dois croquetes, um duchesse e um pastel de nata. Por favor e sem um pingo de indecisão na voz.

Quem a visse passar, mulher pequena e enfezada de tabuleiro na mão, diria que se preparava para matar a fome de uma vida. Assim foi. Sentada na mesa mais escondida da cafetaria, de ombros contraídos e olhar desligado, Raquel abocanhou primeiro a sandes, intervalou os croquetes com o duchesse e rematou com o pastel de nata. Sem respirar nem limpar a boca entre cada dentada.

Observou os pratos vazios. Havia migalhas por toda a parte: no tabuleiro, na mesa, na roupa dela e no chão. Sentiu-se cheia de nada e correu para a casa de banho. Todas as cabines tinham as portas abertas e entrou na primeira à direita. Ajoelhou-se e levou os dedos à garganta.

Raquel vivia numa corrente de precisar e não precisar, de querer e não querer. As necessidades impunham-se, atropelavam-se, substituíam-se. Galopavam dentro dela e levavam tudo à frente. Ninguém estranharia se a visse ali, prostrada ao lado da sanita. Bem vistas as coisas, estava na casa-de-banho de um hospital, o sítio de maior degradação humana por metro quadrado.

Não desviou os olhos do fundo da sanita quando puxou o autoclismo. Era isto que a fascinava: confirmar que conseguia dominar algo que lhe era exterior e, ao mesmo tempo, estava dentro de si. Por breves instantes tinha a capacidade de conduzir a ordem das coisas. Lembrou-se da noite anterior.

Ao regressar a casa tinha sempre a sensação de estar a nadar contra a corrente de um rio – a vontade de estar com ele fazia atrito contra a necessidade de estar sozinha. Nessa noite, sem saber bem porquê, a urgência de estar sozinha tinha levado a melhor. Raquel fez peso morto e deixou-se levar pela corrente.

André esperava-a sentado no sofá, com uma garrafa de Super Bock na mão e umas quantas, já vazias, espalhadas pela mesa de apoio. Estes eram sempre os piores dias, aqueles em que ela queria isolar-se e em que, por coincidência, ele voltava a beber.

Foi até ela aos tropeções e tentou agarrá-la. Sabes que não gosto que me abraces quando cheiras a cerveja. Disse-o tão baixinho que foi como se lhe desse carta branca para insistir. Sentiu o hálito dele por toda a parte. No pescoço, na bochecha, no peito. Empurrou-o, embora sem sucesso. André possuía a capacidade de a absorver e de lhe sugar todas as forças. Amava-o e era isso que mais a assustava.

Voltou a empurrá-lo, desta vez mais convicta do que fazia. Seguiu-se um braço de ferro interminável. André agarrou-lhe os pulsos e lançou-lhe um sorriso paternalista. Vá lá, princesa, deixa-te de coisas. Raquel respondeu-lhe aos pontapés, enquanto gritava descontroladamente. Odeio-te, odeio-te, odeio-te.

O amor que sentia por André era tão reconfortante quanto tóxico. Era mais forte do que o choro compulsivo e mais urgente que o riso provocado pelo toque leve de uma pena na pele. A pressa era sempre maior quando estava com ele. Como se a vida passasse por cima dela e a consumisse para além dos limites do controlo.

Naquele momento, contudo, a necessidade de o expulsar era maior do que a de continuar a amá-lo. Mas deixou-o dominar. Sem resistir, deixou-o atirá-la para o sofá. Deixou-o até entrar dentro dela. Deixou-o acelerar até não conseguir mais e manteve-se muito quieta. Linda menina, ouviu-o dizer no fim.

A pressa de Raquel apareceu sabe-se lá de onde e segredou-lhe ao ouvido que devia pegar na garrafa de cerveja tombada junto ao sofá, que devia acabar com aquilo de uma vez por todas, que talvez não fosse má ideia dar com ela na cabeça de André. Raquel dificilmente conseguia contrariá-la.

Como se estivesse fora de si, viu sangue, estilhaços de vidro pelo ar e André meio atordoado, mas ainda de pé. Raquel investiu novamente, desta vez com o gargalo, a única parte da garrafa que ainda tinha na mão. Só parou quando, no meio de todo aquele sangue, já não conseguiu distinguir-lhe as feições.

A água do autoclismo deixou de correr. Raquel apoiou-se na sanita, levantou-se do chão e foi até ao espelho para ver se tinha a boca suja. Olhou o relógio e, com prazer, verificou que ainda tinha dez minutos de visita. Precisava urgentemente de o abraçar.”

Amor Bulímico por Rita Da Nova, conto integrado no projecto Quem Conta um Conto

 

 

Quem conta um conto…

A menina de Olhão
por Bárbara V.

“Desde que nascera que dava para ver que havia qualquer coisa de diferente com aquela menina. Cabelo não tinha nenhum, mas tinha uns olhos tão grandes que mesmo que tivesse algum cabelo ninguém repararia nele. E logo nesse dia causou muitas discussões:

Mãe: “Com uns olhos tão grandes não pode ter saído ao meu lado da família.”
Pai: “Não comeces com essas coisas que nunca houve nada assim do meu lado!”
E claro, os vizinhos não tardaram em fazer piadinhas:
Vizinha do 2º direito: “Essa deve ser de Olhão.”
Vizinha do 3º esquerdo “Quando crescer ainda vai jogar para o Boavista.”
Vizinha do R/C onde era uma mercearia: “Aposto que a frase preferida dela vai ser: Grandes olhos te vejam.”

Os pais, coitados, não conseguiam esconder a tristeza de ter uma filha assim. E decidiram que pelo menos até ela ter idade para ir para a escola, ficaria fechada em casa, para ver se os vizinhos se esqueciam. Ou se a cabeça dela entretanto crescia e disfarçava o tamanho dos olhos.
E assim, a menina cresceu, mas os seus olhos cresceram com ela. O que conhecia do mundo era apenas pelo que via da janela do quarto. À noite, sempre que olhava para a lua cheia dizia para si mesma que devia ser o olho do céu. Mas como, por mais que olhasse nunca via o outro olho, pensava:

“Coitadinho do céu, é zarolho.”

Quando fez 6 anos a menina lá foi para a escola.
A professora sentou-a na última fila, porque não gostava de ter aqueles grandes olhos ali à frente. Assustavam-na.
No recreio todos os meninos gozavam com ela e diziam que dava para jogar à bola com um dos seus olhos, por serem tão grandes.

Com o passar dos anos aprendeu a esconder os seus grandes olhos, para dar menos nas vistas. Deixou crescer a franja quase até à ponta do nariz e usava-a sempre penteada para a frente. Aprendeu também a gostar de passear pela floresta, especialmente à noite, quando não havia ninguém para gozar com ela.

Fui num desses passeios que conheceu um mocho. Ficaram logo amigos. Pois foi o primeiro ser que a menina conheceu que não gozava com ela. Talvez por ser velho e já ter visto muita coisa, ou apenas porque tinha ele próprio uns olhos para o grandito.
Fosse o que fosse, tornaram-se inseparáveis. O mocho mudou-se para a árvore da janela do quarto dela e passavam as noites a conversar.
A menina contava-lhe como sabia sempre o que ia acontecer. Porque via as coisas antes de elas acontecerem. O mocho achou aquilo estranho e aconselhou-a a pedir aos pais para a levarem ao médico.

E foi numa consulta de oftalmologia que se fez uma descoberta fantástica:
A menina, com aqueles olhos gigantes, via muito mais longe que qualquer outra pessoa. Na verdade via tão longe, tão longe, que via o dia seguinte. E se se concentrasse muito via ainda mais para a frente que isso.

O oftalmologista, explicou então à mãe da menina como é que aquilo acontecia.
Ela via de facto muito bem e assim conseguia dar várias voltas à terra com a sua visão. Ora dando várias voltas à terra, acabava por já estar no dia seguinte quando via o que estava a acontecer.

Um belo dia, quando tinha 12 anos, conheceu um rapaz. Na verdade conheceu-o de véspera, porque conseguiu vê-lo chegar, ainda ele estava longe dali, mas ele só a conheceu naquele dia. A menina estava sentada à entrada de sua casa, a fazer bolinhas de sabão e o rapaz sentou-se ao lado dela.
Ficou silencioso por um tempo e depois disse:

“Tens esses olhos assim grandes para me ver melhor?”

A menina fez mais 3 bolas de sabão, olhou para ele e sorriu. Tinha sido a pergunta mais simpática que já lhe tinham feito sobre os seus olhos. E foi então que aconteceu o que ela já tinha visto no dia anterior: deu o seu primeiro beijo e desde esse dia nunca mais se separaram.”

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