O professor que aboliu os TPC (e os exames, os chumbos, as campainhas…)

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Foi aí que entrou aquela medida do ‘toda a gente passa’?
Foi aí, foi. Mas essa expressão é de um jornalista, não é minha. É um exagero, embora a retenção hoje seja de facto residual. A questão era: não fazia sentido estar a passar alunos que depois não aprendiam nada. Alguém come um prato de sopa fria? Não. E também não se aprende matéria ‘requentada’. Isto qualquer pessoa percebia que não funcionava. Então porquê insistir numa coisa que não funciona? E os maiores problemas disciplinares vinham precisamente de repetentes. Por isso, usou-se a lógica e o bom senso. E sem nunca fugir à legislação – não temos uma única medida fora da lei – começámos a procurar outras soluções: porque as há, não são é postas em prática. Uma delas foi evitar ao máximo as retenções. Ora não retendo, tínhamos de dar mais apoio para que aqueles miúdos conseguissem acompanhar os outros. Mas não chegava. E havia, na lei, outras opções para eles: cursos profissionais, currículos alternativos, outro tipo de ofertas que podiam estar à disposição. E foi tudo isso que passámos a oferecer, a par de muito mais apoio nas aulas.

Como é que passando um aluno faz diminuir a indisciplina? 
Dantes a mentalidade escolar era esta: se o aluno estuda, ao fim do ano tem um prémio e passa, se o aluno não estuda, ao fim do ano tem um castigo e chumba. O que é que acontece com este esquema: o aluno que chumba, no ano seguinte é o mais velho da sua turma. Tem o poder e a aura dos malcomportados, e torna-se no líder que não era. Depois, já ouviu a maioria das matérias, portanto tem o trabalho facilitado e não se esforça. Pelo contrário, se transitar com os outros, tem de fazer um duplo esforço: o mesmo que os outros, mais o trabalho que deixou para trás. Portanto, não se torna um revoltado, não se torna um líder, e é obrigado a trabalhar mais. Outra coisa que reparámos era que mais de 90% dos problemas disciplinares aconteciam à sexta à tarde, quando os miúdos estavam mais cansados. Por isso, até hoje não temos aulas à sexta de tarde.

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Entrevista de Catarina Fonseca a Adelino Calado na Activa, vale mesmo a pena ler tudo.